PASSAGEM - 2010/2011


Fecho o ano com todas as cores. Criei uma paleta mágica e, com as minhas mãos, fiz traços e rabiscos. Desenhei nomes, rostos, lugares e paisagens. Fiz caminhos diversos.
Fui ao encontro de uns e abracei aqueles que vieram ao meu encontro.
Brinquei com as palavras e com elas criei histórias, inventei nomes e cores.
Certamente, alguns narizes torceram, achando que os textos não valem a pena, mas aqui, não tem nenhum escritor, nem sou um profissional da área humana, passo longe de tudo isto...
Fecho este ano de 2010 com a sensação de dever cumprido. Fiz vários amigos virtuais
- coisa que há um tempo duvidava. Joguei na tela, aquilo que acabava amassado e no lixo.
Fecho o ano com todos os nomes que por aqui passaram e deixaram um recado, em meu coração. Desejo a todos vocês saúde e paz.
E que venha 2011 com muito mais textos e comentários.

DEVANEIO































Meu sonho azul
tinha tanta luz
que fiquei aqui
no mar
pra amar
você
sonho bom
com gosto de verão

Meu sonho amarelo
tinha tanto sabor
que fiquei feliz
em saborear
sua pele
em febre
sonho quente
com gosto de gente

Meu sonho lilás
tinha tanto mistério
que levantei sério
acendi a luz
e comecei a pensar
perdi o sono
fui pra janela
namorar a lua


Meu sonho verde
tinha tanta graça
que de pirraça
fiquei a dormir
é tão raro subir
em árvore
rolar no gramado
brincar de pique
viver a sorrir


Meu sonho branco
tinha tanto pano
muita sombra
varal dançarino
brisa gelada
carregada de meninos


Meu sonho negro
tinha tanto pavor
vampiros e bruxos
que acordei
cheio de medo
no chão

Mas é tão bom sonhar
permanecemos vivos
controladores de tudo
donos do mundo
e quando tudo fica confuso
num segundo
acabamos com tudo
não permitindo pesadelo
só o seu começo...

CLAUSURA




















Na minha rua
tem várias portas
muitas janelas
enfeitadas
com plantas
e cadeiras vazias
na varanda
Na minha rua
tem várias casas
e ninguém na janela
será que somos fantasmas
moradores invisíveis
desta rua tão silenciosa?
Onde estarão seus
moradores?
Acamados por uma virose?
Viajaram em mutirão?
Ou todos têm medo
de ladrão?

O VERBO
























Palavras isoladas
significados
Palavras unidas
sentimentos

Palavras pequenas
recados
Palavras complicadas
decretos


Palavras escritas
mensagens
Palavras faladas
confissões

Palavras floridas
paixões
Palavras tremidas
despedidas

E na lápide
palavras não ouvidas

QUERER





























Saudade escondida
Coração camuflado
Grito engasgado
Lágrima represada
Amor doído
Todos os sentidos
Perdidos
Corpo escarnado
Alma fragmentada
Amor esquecido
Peito que arde
Que morre de medo
De tanto conflito
Não quer mais
Amor dor
Quer
Amor vulcão
Amor paixão
Não quer mais
Amor pavor
Quer
Amor eterno
Satisfação
Não quer mais
Amor que mata
Quer
Somente um amor
Que cure a dor
Que tenha asas
E que o faça
Um sonhador
Um vencedor...

RUA




















Rua, gente, cães
Desespero, aflição
Buzinas, multidão
Corpo molhado, salgado
Boca seca, faminta
Rua
Gente
Cães
E lá longe
Muito longe
A esperança
De um dia melhor
Rua, gente, cães
Pássaros, primavera
Boca sedenta
De amor
De paixão
E ainda é verão!

SABEDORIA





































Não voltaria um segundo de minha vida
Mesmo que amanhã fosse o meu último dia
Não aguentaria a angustia de imaginar
Como seria um novo amanhã
Não trocaria meus erros por outros erros
Não trocaria os desassossegos adquiridos
É... não trocaria o que já conheço
As desilusões
Os desamores
Os medos
As frustrações
As alegrias
As paixões
Os amigos
E principalmente os inimigos
Cultivados e cativados
Sem o menor constrangimento
Não trocaria esta vida
Quase imperfeita
Por uma vida quase perfeita
Afinal, foi esta que Deus me deu.

A FUGA








































Hoje, decididamente, me fecho
Entro em balanço
Desencanto como bruxo
Evaporo em fumaça colorida
Canto pra subir
Danço pra me despedir
Já não sei mais...
Hoje, decididamente, me calo
Entro em recesso
Em versos – é tudo que eu quero
Dou um adeus miúdo
Fico mudo
No escuro
Se, por acaso, baterem em minha porta
Ela estará aberta
Deixo aqui meus textos
Um pouco de mim
Entre, invada, vasculhe
[Eu quero assim]
Hoje, decididamente, tiro férias
Minha mala está repleta
De amigos em celulose
Navegarei em outras brumas
Banhar-me-ei em outras águas
Caminharei em outras matas
Matarei minha sede
Beberei em outras taças
Mesmo ficando em casa
Que faz parte de mim
Hoje, decididamente, me fecho
Confesso...
Já estou com saudade
É necessário
Mas não é o fim...

MENESTREL


















Gosto de me sentir livre
Digo de maneira solta
Palavras tontas
Um tanto bobas
Não posso agradar a todos
É assim que sou
Forasteiro
Bandoleiro
Desordeiro
Neste mundo sedutor
Meus versos são diretos
Mesmo quando fala de amor
Não faço rodeios
Não conto sílabas
Não estou preso
Em nenhuma ilha
Divido o meu sorriso
Desnudo minha alma
Reativo em palavras
Sentimentos guardados
Abro gavetas
Vasculho armário
Rasgo roupas
Queimo retratos
Ofereço uma rosa
Renego-me ao espelho
Bebo veneno
Te beijo
Danço na chuva
Saúdo a paz
Gosto de me sentir assim:
Livre
Louco
Um tanto idiota
Fora de mim
Falo com a lua
Viajo no tempo
Carregado pelo vento
Converso com os pássaros
Confesso-me ao mar
Gosto de me sentir assim
Amigo do sol
Amante das estrelas
Não importa se você não gosta
Eu sou assim...
E daí!?

HOMENAGEM

Simplicidade








































E nela há vida
Vida na vida
Flor e fruto
E nela há cor
Um nome
Singeleza
Beleza
E entre duas cores
Transformadas
Do branco e do preto
Surge a vida
Na tela hiperativa
Em outras cores
Com o mesmo traço
Do autor