NÓS
















Sou pólvora
Você estopim
Sou baú
Você carta
Sou árvore
Você semente
Sou passado
Você futuro
Somos verbo
A conjugar
Eu...
Pretérito perfeito
Você...
Futuro
Do
Presente
Com fita
Com laço
De cetim...

POETA




Desencontro
desalinho
flutua
segue
sobe
descobre
outro mundo
não-azul
não-amarelo
não- verde
espectador -vencido
sem - força
sem - luz
surdo calado noturno
morto-vivo
caído
esquecido
perdido
no fundo desamor
disfarçado/vencedor
[és um grande
fingidor...]

ANDARILHO





































Entre meus caminhos
encontrei barro
asfalto
movediças areias
cascalhos
e pisos lisinhos
escorregadios
todos feriram
meus pés
e aos poucos
inteligentemente
grossas peles
surgiram
como escudo
Entre meus caminhos
encontrei fontes
águas cristalinas

sombras fresquinhas
de copas verdejantes
entre meus caminhos
encontrei outros
peregrinos
cansados
como eu
e nestas idas e vindas
demarquei o meu espaço
encontrei o meu cajado
e com ele vou seguindo
em passos miúdos
conquistando
outros caminhos

PAUSA


inanimado espelho/reflexo - fosco desejo
Coração encouraçado - elmo protetor
joguei seu nome no tempo e perdido ele ficou
Nicotina na veia, boca vazia à espera de um grande amor
Esquece o que foi dito/ fica o dito pelo não dito
Sou assim mesmo: meio esquisito/ um tanto quanto louco
um pouco desesperado e aflito de paixão

Renovo














Estação traduzida em cores

verde-clorofila
 folhas orvalhadas
                         noturnas
 lua prateada - iluminada cor

[é tão bom dourado coração!]

pétalas desabrochadas em cores gentis

          alma de flores

corpo em cores

           abro a janela cheiro o dia

                   PrimaVera - furta-me-cor

[fico mais feliz!]

Paulo Francisco

PRIMAVERA


















Ela chegou iluminada - quente
Todos a saúdam em revoadas e cantos
Todos a esperam - é tempo de sorrir
Tudo tem mais cor
Tudo tem mais cheiro
Novas vidas - novo amanhecer
Mais alimento - é tempo de crescer
Ela chegou aquecendo-me
dando-me o colorido merecido
Adoro está menina
Adoro a Primavera!

Paulo Francisco

BALADA














Canto em versos tristes

a saudade que em meu peito

aflora

Flora, Flor

METAPOEMA



















Transcrevo meus passos

Passo em passos livres

Transito em trilhas e trilhos

Subo e desço no ritmo

Transpasso

Transmito

Disfarço

Meu grito!

Transcrevo meus passos

Aflitos

Perdidos

Num espaço

Invisível

[Tenho medo]

Do espaço

Do abismo

Transumano

Meu grito!

ACONCHEGADOS







Quero meu corpo
molhado
exausto
tremido
Quero a bobeira
na cama
pequenas lembranças
[Eu não ligo]
Quero meu corpo
No seu
[Transgrido]
Todas as cores
Todos os amores
Todos os sabores
[Vencidos]
Aqui?
Dois corpos nus
Marcados
Caídos
Esquecidos
Lá fora!?
Pecados

Cotidiano



Tece uma armadilha

Dança em agonia

Sem moradia, vive no chão

Cheira cola - RespirAr

Gasolina [Da boa]

Fuma

Bebe

Pico na veia! Mais tarde

Ninguém sabe o que mais vem?

É carne morta - Alma perdida

Não, recupera não!

É chutado

Chupado

Cuspido

Ignorado

Aprendiz de ladrão

Faça a sua parte:

Dê pro seu filho melhores escolas

Cursos de idioma

Uma nova conta e um cartão

Resguarde-o num aquário

Use vidro escuro - Óculos escuros

[Tudo é ilusão]

Puta na esquina

Menina na calçada

Calça arriada

Quem vai?

Velho-babão

Mulher maltratada

Palavras ferinas

Velados cidadãos

Boca banguela - Prato de sopa

Confraternização

Agasalhos pro frio

Brinquedos esquecidos no caixão

Dias natalinos - Dim-dom!

Dundum - no peito

Tudo é efeito

Oração na igreja

Missa na capela

Na esquina, um corpo no chão

Não é o meu

Não é o seu

É o filho da puta, putapolítica, putamiséria, vidaputa

de quem acorda todos os dias nesta vida

Que não é vadia pra ganhar o pão.