Ardente


Não segui para o Oriente
Não cruzei oceanos
Não viajei de trem
avião ou navio.
Não voltei do Ocidente
Não estava doente
Nenhuma moléstia latente
- aparentemente estava vivo.
Meu coração batia no compasso
da normalidade vivida.
Meus olhos fixos vidravam a paisagem refletida.
Meus braços finos, minhas mãos manchadas
tremiam
tremiam de frio.
Corpo molhado
Carne fatigada
Veias estufadas
Não, não era inverno, não era outono.
Era apenas delírio em pleno verão.
Era o inferno surgido de repente
- presenteado  pela picada de um mosquito.




Paulo Francisco

Medo



Estou preso. Há uma barreira invisível
lá fora que não me deixa  sair
não é o frio
não é a fina chuva
não é o dia escuro
não é coisa física
tampouco divina
Simplesmente não consigo sair
Algo me impede de chegar lá fora
- sair daqui é a certeza de perder
Mas, perder o quê?
Não sei...
Há algo atemporal por aqui.


 Paulo Francisco

Bailado



A flor e o vento juntos formaram o movimento
O vento balançou a flor
A flor perfumou o vento
- e ele, no terreiro, registrou todo aquele sentimento
da flor pelo vento.


Paulo Francisco

Dúvida



Talvez eu seja ridículo
ou esteja ridículo
[não sei]
quando leio e escrevo poesias
quando namoro a lua
quando digo que acredito na ternura
humana
quando aposto cegamente na bondade do outro
Talvez eu esteja malhando em ferro frio
num tempo tão cruel
tão sem noção
Talvez, o sem noção seja eu
um  louco que acredita ainda
que possa sair flores da boca dos canhões.
Mas se entre minhas palavras e meus olhos
há os meus sonhos.
Que haja então poesias
[ridículas ou não]


Paulo Francisco

Foi assim









Bem que eu me lembro,
era meio de primavera
- era sim!

Sentados no meio-fio
conversávamos amenidades
- coisa humana
e tivemos que correr até
a marquise mais próxima
molhados (ou quase) sorrimos
e sem uma única palavra
voltamos à chuva às gargalhadas
no maior chuveiro do mundo.

Bem que eu me lembro
foi o começo de tudo
- foi sim!

Roupas coladas no corpo
silhuetas além dos olhos
e sem uma única palavra
o beijo mais molhado do mundo.
- coisa humana que abranda tudo.


Paulo Francisco

* Bobo do tempo



Até então, eu não sabia, Aninha,
que aquelas florezinhas vermelhas,
brancas, rosas e amarelas,
cada qual num vasinho improvisado
enfeitando o muro da tua casa
eram chamadas de onze - horas.

Foi Graça, sua irmã, que me ensinou
que a florzinha de cinco pétalas
se abria antes do meio-dia,
por isso o nome onze-horas.

Mais tarde, e já era tarde, descobri que presentear
alguém com a plantinha é uma confissão de amor.

Passaram-se os anos e jamais me esqueci de vocês.
Você sabia que a Graça não me disse, talvez não soubesse,
que a onze - horas também pode ser chamada de time fool*?


Paulo Francisco

Memória


Amei-te tanto que me deixei enganar
não vi as verdadeiras cores que brotavam do céu
não senti o quão doce eram as caricias do mar
não permiti que meus olhos enxergassem além dos teus
Tornei-me bicho acuado, vento aflito, galho seco. folha morta, sem Deus
Amei-te tanto que me deixei enganar
esqueci-me do tempo, do dia, da noite, da vida
Amei-te tanto, meu amor, que me esqueci de me amar.


Paulo Francisco

Transbordamento



Impossível não te dizer
o que em mim
represa
Dir-te-ei antes
que
vaze
e
saia
tudo
pelo
        l
              a
                     d  
                             r 
                                    ã
                                             o.


Paulo Francisco

Chuva




Chove. O céu chora o que está represado em mim.

Paulo Francisco