Obscenidade





















No mistério criado
surge o tema querido
fingido por belezas
coladas/sobrepostas
a realidade crua/nua/dela
e de mais ninguém.

Horizontalidade
















Quando me perguntaram por onde andei, respondi:
- No passado, resgatando o meu futuro.
Sim, trafeguei por caminhos antigos
por caminhos já percorridos
que um dia abandonara
por orgulho
por ignorância
por mediocridade humana
ou seria desumana?
- Talvez!
Sim, recuperei partes 
que estavam perdidas
num passado represado
contido em mim.
Sim, voltei ao passado
pra melhor olhar o meu horizonte.

Companhia

















Ainda continuo a andar.
E nessa minha andança
passei bem perto de ti
mas... ao olhar
para o mar
para o céu
e para trás
eu não a encontrei.
Neste meu caminhar
procurei
teus passos na areia
tentei
sentir teu cheiro no ar
mas um vazio ficou
pois...
não havia cor
não havia perfume
não havia flor
não havia... você.
Ainda continuarei a andar.
Seguirei por mais uns dias
este meu caminho
de sonhos.
E nele, é certo:
sempre terei você.

Pegadas
















Na areia tingida
pelo sal
marcas profundas
e frágeis
da raça humana.

Estiada

















Depois da chuva
o céu transformou-se
em pasto azul
e como mágica
os brancos carneirinhos
surgiram espalhados
espelhando
a nossa alegria.

Toró

























E o céu derramou
 no final da tarde-
- de uma única vez -
todo o suor de um dia
ensolarado
típico da estação.

Visão





Seus olhos ressaltaram
- além da textura da imagem -
o sol, o pescador e as gaivotas.
Atrás das embarcações
 - cobertas pela neblina -
o horizonte  perdido
na imensa e densa
 cortina cinza.


SEGREDO




Saia desta melancolia

provocada

despedida não é o fim

vamos para casa

o dia já terminou

vamos ao encontro

dos nossos

daremos uma desculpa

trânsito

hora extra

qualquer coisa

melhor que nada

vai...

Vamos para casa

sem nos arrepender

temos hora marcada

ninguém vai nos deter

somos pecado

vergonha

ninguém vai compreender

disfarce as marcas deixadas

não demonstre preocupação

amanha será um novo dia

deixe de melancolia

guarde-a em carta codificada

ninguém precisa saber

Clara





E nesta primavera
hesitada
de ventos indolentes
de manhãs mornas
de mar enjoadinho
de tardes serenadas
e noites de poucas estrelas
resta-me fechar os olhos
e sonhar-te.
E nos meus sonhos desenhados
contorno seu corpo
recubro-te ardente
sem estrelas
sem céu
sem lua
sem mar.
Nestes meus sonhos desenhados
de noites escuras
somente você me ilumina
nesta fotografia
inventada por mim.

Paulo Francisco





(ainda caminhando por aí)

Da cor do mar




Ela quer morar na praia
quer tirar dentro de si o mar
- o mar azul
Espalhar em ondas brancas
numa sonoridade única
a voz guardada em seu peito desfeito
- sem contrafeito -
em seu mar azul.
Ela quer morar na praia
compartilhar o seu mistério
nas areias claras de seu mar azul
Ela quer morar na praia
transformar em estrelas
pingentes
todos os beijos secretos de seu amor azul.

Paulo Francisco