Concerto


Os braços abraçam
agarram
enlaçam
Prendem no peito
sonhos
desejos bons
Nuvens doces lambidas
sorvidas
e muito mias.
Os braços enlaçam
dois corpos molhados
Corações colados
abrasados
- gangorra aos céus
vai e vem pulsados
Bomba-atômica amorosa
hilariante/demente
semente a aflorar
Rosa desabrochada
pétalas encarnadas
soltos no ar
E os braços rendidos se abrem
libertando a alma romântica
deixando-a solta a flutuar.

Paulo Francisco


Verdade

Não acreditem nos poetas
- Eles não existem
Acreditem!
Eles não possuem asas
não viajam em céus mágicos
não caminham em espelhos d´água
não flutuam juntos as estrelas
não conversam com a lua
não morrem de amor
Não, não acreditem nos poetas
- Eles não existem
Acreditem
somente em suas almas
somente em suas poesias
Elas sim, existem.


Paulo Francisco

Inspiração

Encantam a minha insônia
o canto dos passarinhos matutinos
Já passam das cinco.E a poesia acorda
Ouço, além dos pássaros, a voz nervosa
do Concretista Comunista.
Ele fala
Ele explica
Gesticula
Declama!
Ouço mais que poesia
Ouço além dela
Além dos passarinhos.
Ouço-me além de meus olhos
Minha alma fala comigo.

Paulo Francisco

Talvez

A cadela uivava alucinadamente
na madrugada agitada e fria
Queria ela, a cadela, companhia?
O vento passava aos gritos
balançando tudo
Queria ele, o vento, um abrigo?
A manhã nasceu visualmente pardacenta
manhã fria e triste
Queria, ela, a manhã, outra cor?
Acordei quase ao meio dia ainda sonolento
com o meu corpo cansado e fraco
Queria eu um novo corpo?
Tentei escrever este poema
Queria ele, o poema, ser outra coisa?
[Talvez]

Paulo Francisco

Oposto

Ando meio descontente
Um tanto quanto esquecido
Meio bicho...
Meio gente...
Um tanto quanto mitológico
Um tanto quanto pré-histórico
Meio gente
Meio bicho
Às vezes alado
Às vezes peregrino
Têm horas que eu choro
Têm horas que eu sorrio
Durmo mais que devo
Sonho menos que preciso
É um ziguezague no caminho
É um ziguezague indefinido
Ando um tanto quanto vagaroso
Um tanto quanto aflito
Um dia sol
Um dia lua
Um dia vento
Um dia chuva
Ando meio descontente
Um tanto quanto doente
Com a alma dormente
Com os pés feridos.
Ando assim, Maria, sem saber...
um tanto quanto meio perdido.



Paulo Francisco

Profundo

Trago n´alma mais que poema
mesmo ainda sendo pedra
Trago n´alma mais que poema
mesmo sendo ainda pedra
Quem dera pudesse ser um poema
aberto por completo
onde meus medos fossem mostrados
meus amores revelados
minhas cores diluídas
minhas tristezas sepultadas
e meus pecados perdoados
Ah, tiro d´alma os meus desejos
os meus anseios
e doo a esse texto em forma
de poema declarado.
Trago n´alma mais que tudo
amor de pai
amor de filho
amor materno
amor fraterno
amor amigo.
Trago no fundo dela
no fundo de minha alma
mesmo ainda  sendo pedra
um Deus vivo.

Paulo Francisco

Fim


E na despedida
o encontro
          dos olhos
o encontro
         dos lábios
- há na união dos corpos
         um abraço apertado
                            gritando: Não!
Almas que se afastam
olhos que se alagam
mãos que se desprendem
          querendo ficar.
- do nó desatado
            restou-se apenas a fita
                             do laço desfeito.

Paulo Francisco