Feixe



Encontro-me nesta cela de angustia
entre a penumbra e a escuridão
Sei que o que vejo não é miragem
estou plenamente lúcido
limpo
Estou em mim!

- não é vertigem o que vejo

Entre o negro e o cinza
persiste uma nesga de brilho

Entre meu corpo e minha alma
há um vácuo a ser preenchido

Há uma nesga de luz
entre o negro e o cinza
e uma pedra que brilha.

Paulo Francisco

Imaginário



Numa tarde esquecida pelo sol.
onde a mata se cobria de neblina
e a estrada serpenteava em curvas e desafios.
Eu me perguntava num silêncio profundo
para onde estávamos indo.
Não por medo. Não por não confiar.
Simplesmente porque naquele instante
não queria chegar a nenhum lugar.
Queria continuar seguindo em frente
Simplesmente viajando
ziguezagueando em pensamentos
num eterno e doce sonhar.

Paulo Francisco

Encerrado



Estava tudo turvo como neblina em alto-mar
Estava tudo parado como num sono profundo
[nenhum som – quase tudo sem cor]
Tudo estava num espaço-tempo esquecido
Quase tudo invisível –  impossível de se acreditar
Não era medo, não era dor, não era tristeza.
Talvez fosse uma mistura de sentimentos.
Talvez não fosse nada – apenas uma situação temporária.
Um congelamento abrupto na alma e no coração.
Talvez fosse somente um sonho obscuro.
Talvez fosse um passado de um amanhã feliz.

Paulo Francisco



Insatisfação






Chega!
Não quero mais essa coisa implícita, morna, quase morta.
Quero mais que ruído, barulhinho besta.
Quero muitos decibéis de felicidade.
Quero manhãs ensolaradas e gritadas.
Gritos amorosamente sentidos.
Chega!
Não quero mais essa coisa tácita, sombria.
Quero cores que possam compor com o sol a nossa sonata de amor.
Chega!
Já não basta somente a promessa: de quem sabe um dia!

Paulo Francisco

Cadê Tereza?
























Cadê Tereza?
 Tereza trocou
de barraco
desceu o morro
te abandonou

Estuda à noite
faz supletivo
arrumou um trabalho
é Fundamental

Tereza – reza
reza com pressa
está atrasada
não tem essa
é domestica
é normal


Cadê Terê?

Tereza
que não é Batista
que não está cansada
enfrenta a batalha
é diarista
todos os dias

Terê não volta
malandro!
trabalha de dia
numa boutique
quem diria!
ela é a tal

Cadê ela?

Ela sobe o morro aos sábados
gosta de samba - é bamba
estuda historia da arte
não encana – está bacana
frequenta vernissage
no meio de semana

Cadê?
Cadê Tereza?

Tereza! Malandro...
foi à luta
não tá na sua
te abandonou.

Mulher de verdade
enfrenta a diversidade
aprendeu a gritar
contra a desigualdade


Cadê?

Ela tá aqui, tá ali
tá em todas as partes
ela cresceu, malandro
canta, dança, faz arte

Tereza é Doutora/Escritora
Professora de pós graduação

Cadê Tereza?

Tereza se foi
ela quer mais
te deu um tchau
te abandonou

Paulo Francisco

Casca


Corpo inerte
sem vontade
fraco
encolhido
quase cinza
quase morto
O corpo que por hora habito

Paulo Francisco

Engano



Não, não era meu o corpo quase morto
Era de outro o corpo quase morto
Adormecido pelo frio da noite cinza
À espera da claridade do dia
Permaneceu inerte
Esquecido - Quase morto

O corpo caído de um outro mendigo

Paulo Francisco

Despertar



A claridade ilumina o corpo
Invade a derme
Nutre a alma
E o corpo quase morto
Refloresce

Num novo amanhecer
Paulo Francisco

Ilusão



E neste intertexto intimo
- condutor de humores ácidos -
de bramidos tempestuosos
e calmaria aparente
refaço-me em outras peles
banhando-me em cores fortes
cobrindo-me em pesadas camadas de tintas
na tentativa  inútil de esconder
as  cicatrizes profundas e invisíveis.


Paulo Francisco

Meninas




Ando por aqui, Clara, longe de tudo
guardado em minha caverna
olhando lá pra fora e vendo o mundo.

Ando por aqui, Ana, perto de tudo
no meio de tudo
no meio de tudo.

Penso, Lena, que não estou aqui
estou mesmo é aí perto de ti.


Paulo Francisco