Estou em falta com
você. Estava tomando um cafezinho, na minha padaria preferida,
quando vejo um sorriso à minha frente – era meu amigo Marcos que há meses não o
via. Eu, querendo ficar por aqui, escondido, curtindo um céu azul
em minha rede na varanda; ele, atarefado, com filhos, esposa e uma vida pra
refazer depois dos contratempos do tempo que andou mexendo com várias famílias
daqui nos últimos anos.E a dele, foi uma delas.
Não adianta, vai ter uma
hora em que o afastamento é inevitável. Mas somente os corpos se afastam, os
corações continuam juntos.
- Paulo, eu liguei pra
ti, a semana toda, e não te encontrei. Viajou?
- Não, eu estava aqui mesmo... Não queria falar com
ninguém...
- Ah, ta!
Tem hora que é necessário
desaparecer pra aparecer. Eu explico a contradição: Quando tudo parece estar
cinza, sem cheiro, sem brilho, pesado, com pouco ar,simplesmente, entro na
minha ¨cápsula revitalizante¨ e só saio
dela, quando há mais cores, o cheiro é bom e o brilho reflete. Quem me conhece
já sabe e não se assusta com a minha invisibilidade. Quando não estou bem, não
perturbo ninguém. Fico guardado em lembranças e planejamentos
futuros.
- Menino! Quase chamei o corpo de bombeiro pra invadir a sua casa.
Viajou?
- Sim e não (risos)
- Ah, ta!
Às vezes o meu
desaparecimento é simplesmente por pura distração. Pego na encruzilhada da vida
outro caminho em busca de paisagem nova e me esqueço de avisar aos mais chegados
que a caminhada é longa
- Esperei você para o
almoço e acabei almoçando sozinha...
- Ihhhhhh,
esqueciiii... Tínhamos combinado né!
- É.
Não gosto de agendar nada
com muita antecedência. Certamente mudarei de idéia e vou deixar alguém na
bronca. Sou movido pela impulsão, mas não sou impulsivo. Só às
vezes.
- Paulo o Festival de
Jazz vai começar no dia seis, vamos?
- Calma, ainda estamos no
dia dez, deixe chegar mais próximo, ok?
- Ah, sim, esqueci que
tem que ser na hora agá. (risos)
Mas tem momentos, em
minha vida, que planejo e torno-me ansioso até a conclusão do evento. Seja ele
de que ordem for. Como aquele combinado e definido e ela, me deixou a ver navios
horas antes de viajarmos. Mochila pronta pra ficarmos uns dias numa cidadezinha
do interior e acabei na mão. Ela desistiu de ir comigo e só me avisou quase na
hora de partir.
Um dia do caçador, outro da caça – fazer o quê? Tenho
consciência de que já deixei muita gente a pé por aí.
- Vem lanchar comigo
hoje?
- Não dá, vou ao... No
Marco Antônio ( meu dentista).
- Depois?
- Vou fazer algo
(risos)
Já na cadeira do
dentista, a Magui, secretária do Dentista, entrega-me o telefone, era a minha
amiga Maria dizendo que ia me pegar pra lancharmos juntos. Fui ao lanche. Tinha
programado uma coisa e acabei fazendo duas coisas. Melhor assim.
Quando desapareço e você
não me tem por inteiro; quando somente o meu corpo está presente; quando meus
olhos olham, mas não vêem; quando o que falo perde-se no ar; quando o ar é só
pra respirar; quando tudo se resume em querer desaparecer. Deixe-me nesta hora,
faça de contas que eu parti e viajei sem me despedir, mas que voltarei. Porque
eu sempre volto, mesmo que arrebentado e arrependido.
- Oi, estou na cidade,
posso ir até aí te ver?
- Claro, por que
não?
- Posso!?
- Traz o rango, estou sem
nada por aqui
- Levo o
quê?
- Massas, o vinho eu
tenho aqui. (Risos)
Quando a minha canção não
é ouvida, quando o meu poema é concreto, quando o que eu desenho é abstrato,
quando o que eu falo ninguém entende.
Deixe-me, então, aqui deitado, viajando
baixo, certamente irei partir
Estou em falta com você.
Parado no ponto de ônibus, lendo Clarice, depois de ter ido ao correio numa
busca vã do livro da escritora Michele Pupo, sou surpreendido com a frase: ¨ Não
acredito!!!¨ Era a amiga Ascenção, depois de mais de dez dias sem contato,
depois de várias tentativas de me encontrar, ela esbarra na minha
distração daquela tarde fria.
Sorrimos e conversamos
enquanto me deixava em casa de carro. Quando volto a vê-la? Qualquer hora dessas
distraído ou não.
Estou em falta com você.
Minha irmã Ana me liga, preocupada com o meu silêncio.
Estou em falta com você.
Minha mãe me liga, preocupada com o meu silêncio.
Estou em falta com
você. Ela me liga e diz que o meu silêncio é o grito que precisava
ouvir.
Sabe... Eu estou em falta comigo mesmo. Vou andar por aí. Não preciso de muito. Basta uma mochila. O destino eu vou traçando, porque o meu silêncio é sempre branco. E, de branco, vou manchando o céu, vou marcando o chão, vou confeitando os sonhos. E no branco da tela de meus textos,vou pintando o que ainda resta pra pintar.
Sabe... Eu estou em falta comigo mesmo. Vou andar por aí. Não preciso de muito. Basta uma mochila. O destino eu vou traçando, porque o meu silêncio é sempre branco. E, de branco, vou manchando o céu, vou marcando o chão, vou confeitando os sonhos. E no branco da tela de meus textos,vou pintando o que ainda resta pra pintar.
Ah, já avisei a ela que
vamos ao Festival de Jazz.
(Gente, viajando na terça e voltando na segunda - eu acho rs rs. Visito vocês na volta.)
