Quem?


O telefone toca. Eu não posso atender. Estou distante. Não consigo alcançá-lo. Meu corpo dói. Não me movimento. Não consigo erguer-me, preciso que alguém ou algo me alavanque. A dor é maior que a minha vontade. Sinto-me vencido – estou fraco.
Quantas vezes me senti assim: pequeno, incapaz, dependente e insuficiente.
O telefone continua a tocar. Alguém me chama; alguém me quer.
Eu existo. Tenho um endereço, tenho um nome. Há do outro lado do telefone, além de meus olhos, alguém que me conhece. Quem será? Por que insiste tanto? Será que ela me quer? A pessoa distante?
Maldita dor; maldita vida inválida e solitária nesta cama macia, mas que não me serve pra nada, nesta paralisia.
Até quando ficarei aqui, sem minhas pernas, sem meu corpo, somente com os meus braços pequenos e fracos. Braços que não alcançam as nuvens, que não abraçam o sol, que não acariciam a lua. Eles não me servem para o que eu quero neste imediato instante.
Maldita dor! Maldita fraqueza que invade meu corpo e me deixa menor que a poeira acumulada em minha casa.
A campainha toca. O que adianta tocar. Eu não posso gritar e mandar entrar o enigmático visitante.
Sinto dor. Sinto rancor. Sou um perdedor esquecido na lona do ringue. Fui nocauteado pela imprudência sabida.
Eu durmo; eu acordo; eu durmo; eu acordo e não durmo mais. Eu quero rolar, eu quero andar, eu quero correr, eu preciso gritar. Mas, meu peito dói, minhas costas doem, minha alma dói.
Tenho sede, tenho fome, tenho medo. Quero acordar desta angústia surgida. Preciso de uma mão que me guie. Por que crescemos? Por que não permanecemos eternos anjos? Quero asas pra flutuar, voar para um mundo distante.
O telefone toca, toca, toca, e eu não posso atendê-lo. Ele não está ao meu alcance. Maldito barulho irritante. Tanta tecnologia pra um errante.
Que alguém me chame; que alguém me diga que tudo não passa de pesadelo. É um pesadelo? Estou dormindo? Ou simplesmente estou perdido no tempo?
Não, não é ficção, não é delírio, não é literatura pura. Talvez, seja tudo isto e um pouco de realidade – realidade nua e crua. Nua? Crua? Ou vestida de hipocrisia retumbante?
Quem é você que insiste em telefonar? Quem é você que não para de tocar a campainha?
Quem?
Quem?
Quem?
Quem é você que toca meu coração?
Quem é você, que mesmo distante, me acorda deste delírio e me tira desta prisão?
Quem é você,
Que acredita em mim, mas duvida de minha dor exposta?
O telefone toca
Toca
Toca
E eu sem saber o que fazer, neste delírio textual, desenho nas entrelinhas, a minha vida bandida, perdida e esquecida, depois deste acidente transcendental.

12 comentários:

Irene Freitas disse...

Boa noite/bom dia Paulo...
Me intriga. suas últimas postagem sugerem que vc. sofreu algum acidente...É verdade? Ou somente um poeta fingidor...bjs de montão.

lis disse...

Nessa noite também gostaria de telefonar _não fui eu ...
não desejo outro dia igual_ mas por favor coloque o telefone do seu ladinho ... rs
como sei que poeta exagera sempre vou pensar que foi não foi tanto assim_ porque tá doendo aqui também.
um abraço

Multiolhares disse...

Tanto há que nos impede de viver, de querer viver,mas se a vida é um aprendizado, por mais dores que existam na alma ou no corpo a vida continua, ela tem de continuar.
beijos

CANTINHO DA EDNA disse...

BOA TARDE, AMIGO! DEU VONTADE DE INVADIR O TEXTO E ATENDER AO TELEFONE... E À PORTA...
QUE ANGÚSTIA DILACEROU A MINHA ALMA AGORA... SEU TEXTO FEZ LEMBRAR-ME QUE ESTOU ACOMODADA DENTRO DO MEU MODELO DE LAR ENQUANTO EM MUITOS LARES HÁ ALGUÉM PRECISANDO DE QUEM LHE PONHA ÁGUA NA BOCA, JÁ QUE OS MOVIMENTOS LHE FALTAM. LEMBREI-ME TAMBÉM DAS PALAVRAS DE CRISTO, NUMA ALUSÃO CLARA À FALTA DE INICIATIVA DIANTE DA NECESSIDADE ALHEIA: TIVE FOME E NÃO ME DESTE DE COMER. TIVE SEDE E NÃO ME DESTE DE BEBER. ESTIVE PRESO E NÃO FOSTE ME VISITAR! QUE AMOR É ESSE QUE PREGAMOS, DA BOCA PRA FORA, TÃO SOMENTE!? EITA, AMIGO, CONTINUE COM SEUS TEXTOS PERTINENTES E ENVOLVENTES! E TENHA UMA SEMANA ABENÇOADA!

Só em Palavras disse...

Seu texto é sem dúvida
SURREAL: realidade em overdose,
ainda que fictícia
paradoxalmente
é real em muitas vidas que
deabulando seguem dia a dia...
eu?
faço o mesmo,
porém entre sonhos e delírios

maria teresa disse...

Quem? Se não abrires a "porta" nunca saberás ou sabes? Ousa, arrisca, ...
preenche entrelihas!

Viagem fascinante mas sem "acidente transcendental"!
Abracinho meu!

Van disse...

Oi Paulo

Momento de luta travada entre a possibilidade e a realidade.

Um beijo

Vivian disse...

...que angústia sentí
por aqui, my God!

e pensar que entre a ficção
e a realidade basta um
átimo.

cuide-se, poeta!

bjs, muitos!

Anônimo disse...

Boa tarde Paulo.
Ser um eremita, te deixa incomunicável algumas vezes e por isso poucos sabem de suas verdadeiras condições. Então aqui peço desculpas por todas as insistencias sobre o dindin. Como acreditava que havias se zangado comigo, seu silencio parecia provocação.
Me desculpe meu julgamento equivocado. Sabes que apesar de tudo, sempre quis o seu bem. Melhoras, cuide-se, não se isole tanto. bjkas. Irene

MA FERREIRA disse...

Paulo...que texro forte!!
Quanta emoção voce colocou nestes
picos paragrafaos tão grande em significados.
O telefone toca...quem será?

A quem somos importantes? Quem nos quer?
Quem nos quer mesmo que seja para nos consolar?

Boa pergunta....

A resposta vem com o tempo.... por ora sinto a tua angustia...

Um bj....

Michele Pupo disse...

Sufocante! Atende logo, homem! :)

Beijos

Simone MartinS2 disse...

Nesse texto, eu senti um alguem sofrendo por um amor platonico, que por mais que luta para te-lo não lhe é possivel, então, o poeta sofre e sente como se algo o prendesse, um acidente o mantem estatico sem vontade de seguir adiante, resolver logo esse impasse. As vezes, voce coloca tanta emoção em teus textos, que fica dificil saber se verdade ou ficção! Continuo achando que algo não vai bem, por favor, cuide-se.
Abraços